sábado, 18 de maio de 2013

Crônica da Pólvora IV

Numa noite inesperada cheguei ao prédio de J. e disquei seu número do orelhão da rua. Não achei que ele fosse atender, era muito tarde. Mas a luz do seu apartamento acendeu e ouvi sua voz sonolenta depois do clic. Quando atravessei o umbral da porta, me dei conta de mim no olhar pasmo que ele me lançou. Eu fedia a cigarro e cachaça. Enquanto a água do chuveiro esquentava e caía desperdiçada no chão, minha voz tropeçava na língua e nas roupas e as explicações se perdiam. É como as baleias, lembro de ter dito. Elas voltam para a praia onde o caçador vai descansar o arpão. Elas vão morrer na praia, mas isso não tem nada a ver com não conseguir mais nadar. Elas precisam mostrar ao caçador a ferida que ele fez. Olha, eu sangro. É o que as baleias dizem.

Crônica da Pólvora III

Na cidadezinha em que nos conhecemos, uma vez dormimos no píer. J. me disse então que era engraçado que eu não fosse mulher e mesmo assim ele sentisse que podia dormir no meu ventre. Entrar ali e dormir ali. E me habitar. Disse-me que, com um ventre como o meu, eu logo quereria filhos. Mas eu não era mulher. Disse isso a ele, antes de nos separarmos. E fiquei muito tempo olhando os barcos amarrados no píer, e desejei que inundassem.

Crônica da Pólvora II

Pouco tempo atrás, J. teve um filho. J. nunca deixou de ser um menino e dificilmente o deixará. Mas agora o menino é seu filho, de fraldas, de peito, de leite e manha. J. ainda sabe de seu fósforo e ainda o risca no chão, mas o legará ao filho. Poucos foram mais incendiários que J. Só que isso acontece aos pais, eles esquecem. E o que os pais esquecem, os meninos herdam.

Crônica da Pólvora I

D. teme enlouquecer. Precisa ir embora de Brasília. Disse-me que é o céu e a solidão e o deserto. Precisa ir embora. São as bordas, me contou. Há um momento em que se as tateia e sabe da farsa. Numa noite eu o abracei e falei de deuses. Contei histórias até que dormisse. Ele murmurou que era como ouvir o mar, enorme e constante. As histórias são assim, presumo. Não cessam de ir e vir e quebrar sobre a areia.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Gravitacional

Se não me movo, tudo que em mim é solto ganha estabilidade. Nada se ancora em mim. Por dentro, sou uma estação espacial. Mas nada é livre da dor. Um objeto se choca no outro e o som dos estilhaços enche meu peito, que geme e mói, pede e chora. Ainda assim, não é tão grave quanto o peso que adquire um sentimento quando me movo. A velocidade do cotidiano que imprime na inércia de uma lembrança a resistência de uma força contrária.

Noutras imagens,
aquele bilhete de papel dentro de uma agenda há tempos sem abrir, com seu nome dizendo eu te amo na aceleração das 14h de dois meses depois - foi um tiro
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sexta-feira, 29 de março de 2013

Objeto adeus

Como se chamam os destroços de um naufrágio? Aquilo que flutua para longe enquanto se tenta alcançar o bote para o corpo? Como se chama o que sobra do fracasso - o estorno da aposta malograda, que se tenta trazer para o barco, envergonhado da própria ganância - ? Como se chamam os tesouros do luto?

Qual o nome dessas sobras que nos denunciam? A mesquinharia que tenta se esconder na generosidade de ofertar ainda mais para calar a dor de perder tudo; como se chamam esses objetos que agora possuo sozinho?

E os que não possuo mais? Os que perdi. Os que cedi. Os que não quis.

Qual o nome dos bens que se dividem? Qual o nome dos cd's, dos livros, das camisas dobradas, das urnas funerárias. Dos três quadros.

(como se chama que eu tenha chorado cada livro que não li, cada dedicatória, cada palavra grifada, cada rabisco e marca, e tenha dado todos eles de volta, com insistência, com falsa generosidade, com culpa e dor de não ter lido, de não ter lido até o final, de ter antecipado o final, de ter... como se chama que eu não os tenha. O nome, o nome, o nome, de cada palavra perdida, de cada batalha para entender, como se chama esse nome se não se pode pronunciá-lo, como se diz se não fala, como se pode dizer o que não se fala como se pode tentar dizer por mim e por ele como se pode dizer mais ou melhor do que já se disse se já não há mais nada para dizer se.)

Qual o verdadeiro nome de tudo isso que fica e que parte no fim de uma viagem?
Já o sei.

terça-feira, 19 de março de 2013

Acendendo fósforos

Quando criança, pedia histórias; adulto, roubava elogios para dormir.

Ligava para o amante para lhe dizer o quanto o amava. Amava muito. Porque era belo e bom e o fazia de bobo. Porque era sábio, porque era rápido para entender e rápido para a cama, mas demorava no gozo. Dizia ao amante muitas palavras boas e saborosas e até compostas de verdade. Cheio de manha. A boca cheia de sílabas. Daí, no finzinho da ligação, perguntava assim como quem não quer pedir nada, se era bonito. Se cheirava bem. Se era de boa grossura e qualidade. Não era possível negar-lhe, não era pedido. Sim, mas é claro. Mas é claro que os músculos da sua perna são lindos, mas é claro que seus olhos não precisam de lentes, mas é claro que seus cabelos caem bem sobre os ombros. Mas é claro.

Uma pilhagem. Os mais vividos sabiam. Aqueles elogios de começo eram só fósforos acesos num lampejo de dedos. O que interessava mesmo, o que denunciava mesmo, eram os olhos dele quando brincava. Olhos de incendiário. Muito claro.