segunda-feira, 28 de junho de 2010

Tragédia

A tragédia envolve os que estão próximos numa outra consciência. A morte, por si só, nos conta que somos mortais. Mas a tragédia nos assusta com a possibilidade de estarmos a sós. Talvez não haja Deus. A quem se destinam, então, todas as preces, os pedidos, as negociatas e súplicas. Quem acalenta depois que se vão embora as lágrimas, quem escuta os gritos de dor no escuro, quem se compadece e quem se constrange. Se uma pergunta não tem resposta, ela é uma pergunta?

A resposta é a razão de ser da pergunta? Nós somos a pergunta de Deus? Somos a parte de Deus que indaga?






Acorda o Inominável no vazio infinito ( sendo ele próprio o vazio infinito ), antes de sequer inventar o sonho. Não se ergue porque nada o sustenta além dele mesmo. E pela primeira vez em uma eternidade experimenta algo novo, um jeito outro, uma entonação:


- Existo?


Foi o primeiro verbo.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A verdadeira última questão



Existem algumas coisas simples na vida e o segredo é se ater a elas. Mas também existem as coisas extraordinárias. E entre essas duas categorias existem ainda aquelas que não se deixam definir. Como, por exemplo, o twitter do Brent Corrigan. Acho que entre todas as felicidades efêmeras que as mídias sociais nos trazem ao longo do dia, poder acompanhar , entre citações de Einstein e Paulo Coelho, os dilemas de um astro pornô gay certamente está no Top 5.

Vide meu favorito, do dia 8 de junho:

"One final question. Infinitely more pressing: Where the hell do gay porn stars go to find quality friends that don't want to sodomize them?"


Porque essa É a última questão de todos nós. E eu me sinto genuínamente feliz de que haja alguém no mundo para fazê-la em voz alta por mim.


Brent, a voz de uma nação

Disfarçando o desequilíbrio

Para Karina

- Como você se motiva a trabalhar tanto?
- Penso na minha vida amorosa. É sério. Depois de um tempo, fica automático. Eu penso: Ok, posso não conseguir controlar meus ciúmes, mas consigo dominar meu sono e editar essas fitas. Ou então, posso não entender como uma pessoa que diz me amar prefere ficar no msn à noite toda à dormir comigo, mas entendo o que são títulos de capitalização e Taxa Selic. Posso ser incapaz de manter uma conversa sem brigar, mas sou perfeitamente agradável à noite toda com as fontes, se precisar. Posso não ser o suficiente para ele, mas ninguém vai escrever essa reportagem melhor do que eu. No fim das contas, alta competência é um excelente disfarce para o desequilíbrio emocional.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Confissões de um homem magro




Tem um ponto quando você começa a ganhar músculos que, dizem. é difícil de ultrassar. Você chega até esse ponto e, de repente, o que parecia uma feliz subida ao halterofilismo se torna uma escalada quase impossível ao himalaia. Um ponto de quebra, ou algo assim, entre o você que você é e o você que vai começar a se tornar se forçar um pouco mais.

Emocionalmente falando, eu estou bem nesse ponto.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Procura

Por onde você tem andado que não cruza comigo que ando tanto?

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Testemunha



- Mãe, eu nasci?

- Como é, menino?

- Eu nasci?

- Tá ficando doido?

- Eu não me lembro de ter nascido. Às vezes acho que só surgi, sempre fui assim. Mas lembro de ser criança, lembro de ser menor. E tem os sonhos. Mas não lembro de nascer.

- Pois eu lembro. Tinha uma cabeça enorme que quase me partiu no meio. Parecia um coco de tão dura, levou umas doze horas para sair de mim. Depois veio todo sujo, coberto de tudo o que você puder imaginar.

- Eu era muito pequeno?

- Não. Bom, claro que era, senão como ia sair de mim? Mas não era tão pequeno, era forte, tinha cabelos e ficava olhando. Não parecia que tinha acabado de nascer, mas era muito sensível, chorou muito.

- O mundo me assustou.

- Como você sabe? Acabou de dizer que não lembra.

- Presumo. O mundo me assusta até hoje, deve ter sido um primeiro impacto horrível, especialmente o barulho.

- Você sempre foi muito medroso.

- Medroso não, mãe. Sensível.

- Levou tanto tempo para aprender a dormir sozinho. Se metia na cama da sua irmã, na minha, da avó. Era uma guerra, eu tinha que mandar colocar fechadura nos quartos para você aprender a dormir só. Tinha medo do escuro.

- Lembra do armário velho?

- Que você escalava para passar pelo espaço entre as paredes e o teto e ir dormir na minha cama, quando a casa não tinha forro? Como que podia se arriscar a quebrar o pescoço só para não ficar no próprio quarto? Tinha medo do escuro, mas não tinha medo da altura, isso eu nunca entendi.

- Nada é mais assustador que a solidão, mãe.

- Mas você nunca ficou sozinho. Era só o quarto ao lado. Você via monstros, filho?

- Via.

- E deixou de ver?

- Não, eles viraram companhia. Agora só tenho medo quando querem muito me dizer alguma coisa que não quero ouvir. Monstros são terríveis quando precisam chamar atenção.

- Você não existe, filho.

- Claro que existo, você confirmou que até nasci. Mãe, você não pode morrer.

- Que é isso agora?

- Se você morrer, eu nunca vou ter nascido. Fico sem confirmação.

- Que absurdo.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Tela em Branco




Venho tentando escrever e não consigo. A primeira frase vem. Eu imagino meu tema, penso em como o texto precisa ficar, digito algo que a fonte disse e que vai servir de título e então, pronto, travo. Eu releio o que escrevi e nada mais acontece. Preencher essa página em branco parece completamente distante. Uma vida completa de distância. Por que é sempre assim comigo? Por que às vezes uma clareza absurda, como se minha voz fosse o som mais natural do mundo fluindo por um caminho de metáforas, se tantas outras é essa seca de idéias, esse abismo; como se nunca tivesse feito isso. Rejeito tudo o que escrevo. Acho banal, clichê, melodramático e sem talento.

Detesto a palavra “talento”. Parece uma condenação. Ou tem ou não. Mas não mais do que a palavra “inspiração”. Por que não pode ser como pagar uma conta no banco? Apenas levante-se e faça. Os textos jornalísticos costumavam ser assim. Uma fórmula simples, calculada: Responda cinco perguntas. Escolha o mais importante. A primeira frase tem que pedir mais uma informação da segunda e feche o período. Abra e feche.

É quase cirúrgico. O mais importante é saber o que se deixa de fora. Então inventaram esse tal de jornalismo literário e toda a segurança foi por água abaixo. Agora é uma questão de criação, de sensibilidade. É muito difícil fazer algo contra a vontade se muito do seu eu tem de estar presente na coisa. Mas por que eu não quero? Sempre foi o jornalismo literário, sempre foi. Sempre foi sentir as coisas, contar histórias e se deslumbrar. Sempre foi dar vazão a esse caminhão desgovernado que sou por dentro.

É tão frustrante não escrever, é como se eu fosse um guerreiro que não batalha, um médico que não cura. Li o que preciso, sei o que preciso. Então escreva! Pelo amor de deus, não deve ser tão difícil assim, nem é tão especial assim, é só colocar uma palavra atrás da outra, você não precisa ser o próximo Dostoyévski, seu pretensioso! Você mal tem coragem de soletrar Dostoyévski sem checar no Google. Seja coerente.

Só preencha sua página. Foi o conselho que você recebeu, Ronan: Preencha o espaço em branco.