Como se chamam os destroços de um naufrágio? Aquilo que flutua para longe enquanto se tenta alcançar o bote para o corpo? Como se chama o que sobra do fracasso - o estorno da aposta malograda, que se tenta trazer para o barco, envergonhado da própria ganância - ? Como se chamam os tesouros do luto?
Qual o nome dessas sobras que nos denunciam? A mesquinharia que tenta se esconder na generosidade de ofertar ainda mais para calar a dor de perder tudo; como se chamam esses objetos que agora possuo sozinho?
E os que não possuo mais? Os que perdi. Os que cedi. Os que não quis.
Qual o nome dos bens que se dividem? Qual o nome dos cd's, dos livros, das camisas dobradas, das urnas funerárias. Dos três quadros.
(como se chama que eu tenha chorado cada livro que não li, cada dedicatória, cada palavra grifada, cada rabisco e marca, e tenha dado todos eles de volta, com insistência, com falsa generosidade, com culpa e dor de não ter lido, de não ter lido até o final, de ter antecipado o final, de ter... como se chama que eu não os tenha. O nome, o nome, o nome, de cada palavra perdida, de cada batalha para entender, como se chama esse nome se não se pode pronunciá-lo, como se diz se não fala, como se pode dizer o que não se fala como se pode tentar dizer por mim e por ele como se pode dizer mais ou melhor do que já se disse se já não há mais nada para dizer se.)
Qual o verdadeiro nome de tudo isso que fica e que parte no fim de uma viagem?
Já o sei.
sexta-feira, 29 de março de 2013
terça-feira, 19 de março de 2013
Acendendo fósforos
Quando criança, pedia histórias; adulto, roubava elogios para dormir.
Ligava para o amante para lhe dizer o quanto o amava. Amava muito. Porque era belo e bom e o fazia de bobo. Porque era sábio, porque era rápido para entender e rápido para a cama, mas demorava no gozo. Dizia ao amante muitas palavras boas e saborosas e até compostas de verdade. Cheio de manha. A boca cheia de sílabas. Daí, no finzinho da ligação, perguntava assim como quem não quer pedir nada, se era bonito. Se cheirava bem. Se era de boa grossura e qualidade. Não era possível negar-lhe, não era pedido. Sim, mas é claro. Mas é claro que os músculos da sua perna são lindos, mas é claro que seus olhos não precisam de lentes, mas é claro que seus cabelos caem bem sobre os ombros. Mas é claro.
Uma pilhagem. Os mais vividos sabiam. Aqueles elogios de começo eram só fósforos acesos num lampejo de dedos. O que interessava mesmo, o que denunciava mesmo, eram os olhos dele quando brincava. Olhos de incendiário. Muito claro.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Pouco do que presta
O que resta do meu gosto
da tua saliva enquanto roubava
é o gosto da tua língua
misturada a minha pele,
o resto
da tua saliva enquanto roubava
o gosto do meu corpo,
lavado à língua,
à pressa,
à pressa,
A sobra do gozo
do teu gosto,
no meu rosto,
no meu rosto,
Só reza.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Origami
Uma coleção não guarda valor de singularidade. Um quadro
numa parede é maior que uma parede de quadros. A unicidade escancara. A
coletividade desdobra.
Uma carta de amor acabado é um artefato, várias cartas de
amor acabado são uma coleção.
Outra coisa
Mesmo diante de minhas próprias cartas de amor acabado, sou
outro. As cartas de amor acabado se exibem, são exibidas,
Me pertencem sem me pertencerem mais.
Uma restância que traça um rastro sem memória. Não há
memória nas cartas de amor acabado. Não lembro como amei, como pude. Quando
deixei de amar, perdi o retorno. Meu passo, não acredito que pisei.
(Bibliotecas são fortalezas que protegem os homens dos livros)
Colecionar um desejo de se perpetuar
Apropriar o objeto, apassivá-lo na coleção,
carregá-lo com o meu pertencimento,
meu nome grafado na multiplicidade infligida aos seres
Perversidade dos zoológicos, detentos enumerados.
Freud em sua mesa, rodeado de coleções.
Freud em minha estante. 6-7 volumes.
Discordância
Já as cartas de amor são correspondência
- mesmo que sem resposta - As cartas de amor são do
corriqueiro, da vida-a-vida. Bilhetes na porta da geladeira, emails no meio do
trabalho, cartão postal a quem volta. As cartas de amor se perdem. As cartas de
amor são tesouro esquentando a barriga de dragões gulosos – mesmo que você ache
que não.
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