Mais que do sexo, eu sinto falta de ter um homem em casa. Percebi isso esses dias, olhando meu apartamento. Sinto falta de mais um homem. Vai ver é porque eu não sou homem o suficiente para a casa inteira. Mas acho que é só porque sinto falta de ver alguém de cuecas no domingo, olhando a geladeira, coçando a cabeça com cara de sono e concluindo que só sobrou mesmo o queijo. Eu sinto falta do cheiro de alguém ficar misturado com o meu cheiro no cheiro da casa. E dessas outras pegadas todas que a gente deixa quando mora com alguém; eu deixo livros no banheiro, deixo meias e revistas entre as cobertas, deixo a calça jeans na poltrona, porque uso a mesma durante dias. E tem quem ache isso nojento. Talvez outro cara achasse isso nojento também. Provavelmente teria um monte de outras coisas que eu acharia nojento. Sinto falta de achar alguém nojento. Não muito. Mas só o suficiente para lembrar que não somos a mesma pessoa, nem fomos criados do mesmo jeito. Só o bastante para rir. E até para se irritar um pouco e, quem sabe, aprender alguma coisa nova. Ou não aprender nada e irritar ele bastante. Tem gente que acha isso válido também. Não sei o que é isso. E tenho cada vez menos vontade de explicar, para mim ou para os outros. Se é carência - mas não ando triste -, se é doença ou se é amor, eu sei lá. Nesses últimos tempos eu já não sei dizer o que é amor. Freud diz que é narcisismo. Amar o amor. Mas não é só comigo que eu quero dormir. Pode ser que eu tenha sido criado com mulheres demais e agora sinto falta desse pedaço. Vira homem, gritavam os homofóbicos na escola. Quem sabe é isso. Nesse processo de virar homem, ficou faltando metade. Não sou homem o bastante para a minha vida. Preciso de mais um. Tem tantas palavras. Homossexualidade para dizer com quem eu gosto de fazer sexo. Homoafetividade para dizer que não é só sexo. Tem até homotextualidade para falar do que eu escrevo. Estamos sempre categorizando e até acho que isso faz sentido. Acho que é reconhecendo as diferenças que o espaço e os direitos do outro são respeitados. Não forçando o mundão num pacote que diz Olha lá como somos bonitinhos, todos iguais. Entendo isso politicamente. Mas, pessoalmente, eu olho para a minha geladeira e penso: Taí. Casar é legal. E fico feliz de o Estado reconhecer isso também.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Entram pelas frestas
Numa entrevista, perguntei a escritora Elvira Vigna, que usa confessadamente do material biográfico nas obras, como ela sabia que momento da vida merecia virar literatura. Ela me respondeu: "Primeiro: não há escolha. Segundo: Não merece. Aquilo que você escreve não merece. Não é merecer. É obsessão. É ser perseguido."
O que podia ter sido é do que a gente precisa se libertar. E eu quero acreditar que há uma chance na literatura ou na arte. Mas Elvira contou, em segredo, que um personagem ainda a perseguia. Mesmo depois de ter sido escrito em um livro, de ter virado catarse, ele voltava. E ela ainda o via pelas ruas.
"Estou fodida", declarou.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Estética e canela
Tudo o que eu realmente sei é que vou sair daqui e comer dois waffles com sorvete de banana, farofa imperial, calda de caramelo e um pouquinho de canela. Sabe, pode parecer que a canela é um exagero por cima de tudo isso. Mas o fato é que é a canela que compõe a estética da obra. A coisa não é menos doce sem a canela. Aquilo é açucar para matar muitos gordinhos. Mas a sensação do belo não se traduz. Mais ou menos assim: Todos os ingredientes citados são apenas esses ingredientes postos juntos de qualquer forma, sem a canela. Com uma módica dose do pózinho marrom, contudo, a coisa toda pode ser chamada de amor. É como eu vejo.
É uma questão metafísica. Diabética, provavelmente. Mas metafísica principalmente.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
No divã
quarta-feira, 30 de março de 2011
Tenho, antes que anoiteça, ao menos tinha (título provisório)
Tenho, antes que anoiteça, ao menos tinha até agora pouco essa vontade louca de casar com Marcelo. Queria mesmo. Queria logo daqui a pouco, nessas próximas horas de sol com esse céu azul bem azul desse jeito que ele está. Queria a ponto de sentir a textura da toalha branca estendida na mesa de madeira clara da mãe dele, no meio do jardim que dá pros fundos. Queria a ponto de ver o vinho escorrer pela borda dos copos e formar circulos na toalha branco perolada que só se segura do vento por causa dessas taças finas. Queria a ponto de sentir a luz entre as árvores antes de qualquer um poder entrar para me contar o quanto essa bobagem toda é homo demais, bicha até pra mim, antes de qualquer um interromper o "sim".
Quando Marcelo me pediu em casamento estávamos saindo da exposição dos gordinhos colombianos. Tantos gordinhos, tanta tristeza. E, ao mesmo tempo, uma felicidade naquela gordura, uma felicidade assim gostosa engordurada. Deve ser bom ser gordinho e oleoso e engordurado assim. Deve ser bom casar com Marcelo e passar essas tardes engorduradas em galerias, comendo torradas com tomate picado com manjericão por cima e engordar e engordar e engordar. Deve ser bom não passar base nas olheiras todas as manhãs, deve ser. E usar uma daquelas roupas coloridas. Meu deus. Usar um poncho. Será que Marcelo me daria um poncho? Eu queria amar Marcelo e amar um poncho e não amar tanto meu cabelo. O fato é que Marcelo está ficando careca. Não vou dizer isso a ele, é claro. É cruel. Mas é muito triste porque ele não sabe. Talvez fosse menos triste se ele soubesse. Existe uma certa dignidade em saber que se vai ficar careca e sofrer por isso.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Envelopinhos de papel
Quando eu era bem criança, bem menino, nem lembro que idade tinha, mas era pequeno, passei uma noite cortando jornais. Peguei cola e fui cortando os jornais em retângulos. Eu tinha aprendido a fazer envelopes, aí peguei esse monte de jornais e fui recortando, dobrando e colando até virarem um monte de envelopinhos feitos com as notícias e lembro que fiquei achando isso super bonito envelopes de notícias e depois não sabia o que ia fazer com tudo aquilo, porque não sabia por que tinha feito só tinha aprendido a fazer envelopes e queria fazer de novo, até cansar. Aí os levei para a escola no dia seguinte e dei para as pessoas, meus colegas de turma, todos eles, os envelopes de notícias e eles foram recebendo aquilo meio estranhando e abriam os envelopes e não viam nada dentro e, aos poucos, foram ficando furiosos. Porque não tinha nada dentro dos envelopes e jogavam no chão e me perguntavam gritando porque eu tinha dado aquilo e eu não sabia responder. Eu dei porque eram envelopes e me parecia lógico que envelopes fossem coisas de entregar. Não cheguei a pensar que algo tinha que estar dentro desses envelopes. Até hoje essa imagem vem na minha cabeça quando escrevo. Eu me pergunto "por que estou dando essas palavras?" meio receoso da fúria que ocasiona de entregar a alguém alguma coisa que para esse alguém não tem sentido.
Eu não sei qual é a resposta.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Ferida aberta
Mas, no íntimo, sei que essas perguntas servem apenas para despistar minha consciência do que é de fato grave. Que é na dor aguda da lembrança que você deixou que resta a sobrevida do amor que podíamos ter vivido. E se muito embora eu não pretenda confrontar esse feto moribundo ao longo do dia, não posso deixar que morra de uma vez. Seja pelo medo masoquista de que não me sobre nada no escuro seja pela esperança cruel de que, se um dia você quiser voltar, poderá ressuscitá-lo.