O poeta é um menino. Eu mesmo só escrevia poesia quando era menino. Antes disso, roubava poesia de uns livrões pesados, antigos, da biblioteca da escolinha pública. Ia lá na biblioteca, pegava os livrões, copiava no caderno escondido. Porque, sem que ninguém me dissesse, eu esperava que fosse proibido isso de pegar aqueles livrões e copiar. Só olhar pra eles devia ser proibido, porque ficavam no alto e eu tinha sete anos e os meninos de sete anos não são para ficar mexendo em livros. Isso de ser proibido deixava mais bonito. Lia e ficava dizendo para mim, sem entender palavra. Ficava fascinado que as palavras tinham uma coisa de ser dita. Não sei mais explicar. Mas era fascinante pra mim que as linhas desenhadas eram palavras e que eu passava os olhos e saiam da minha boca feito som. Ficou um pouquinho desse fascínio em mim e é por isso que você, meu amigo, gosta tanto que eu te leia em voz alta. Me fascina ainda que as coisas bonitas saiam de gente que nem você e sejam lidas por gente que nem eu. Em voz alta, para dizer ao mundo, para espantar demônios, para ver se as linhas ganham forma ao redor da gente e escrevam nas pessoas o amor. Eu escrevia poesia quando menino também. Depois desmenineci. Escrevo outras coisas, escrevo isso, escrevo para você também. Mas não escrevo mais poesia. Só leio poesias e te falo para continuar sendo menino e escrever cada vez mais como menino. Não desmenineça, meu amigo. Não desmenineça, não.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Desmenino
O poeta é um menino. Eu mesmo só escrevia poesia quando era menino. Antes disso, roubava poesia de uns livrões pesados, antigos, da biblioteca da escolinha pública. Ia lá na biblioteca, pegava os livrões, copiava no caderno escondido. Porque, sem que ninguém me dissesse, eu esperava que fosse proibido isso de pegar aqueles livrões e copiar. Só olhar pra eles devia ser proibido, porque ficavam no alto e eu tinha sete anos e os meninos de sete anos não são para ficar mexendo em livros. Isso de ser proibido deixava mais bonito. Lia e ficava dizendo para mim, sem entender palavra. Ficava fascinado que as palavras tinham uma coisa de ser dita. Não sei mais explicar. Mas era fascinante pra mim que as linhas desenhadas eram palavras e que eu passava os olhos e saiam da minha boca feito som. Ficou um pouquinho desse fascínio em mim e é por isso que você, meu amigo, gosta tanto que eu te leia em voz alta. Me fascina ainda que as coisas bonitas saiam de gente que nem você e sejam lidas por gente que nem eu. Em voz alta, para dizer ao mundo, para espantar demônios, para ver se as linhas ganham forma ao redor da gente e escrevam nas pessoas o amor. Eu escrevia poesia quando menino também. Depois desmenineci. Escrevo outras coisas, escrevo isso, escrevo para você também. Mas não escrevo mais poesia. Só leio poesias e te falo para continuar sendo menino e escrever cada vez mais como menino. Não desmenineça, meu amigo. Não desmenineça, não.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Cinco pedaços
Às vezes sinto a ausência de meus irmãos como se fosse no corpo. É como se ao redor de mim devesse estar reunido um pequeno exército e esse exército me falta. Faltam-me cinco membros, quatro deles se movendo do outro lado do país e um deles em outro continente. Não é uma ausência momentânea e por isso não sinto da mesma forma as saudades da irmã que foi criada comigo e que agora também se move fora do Brasil. A presença dela está aqui, mesmo sem estar. A falta desses cinco que foram criados longe de mim em todos os sentidos é a falta de uma vida. Não. É a falta de cinco.
Não sei como explicar essa sensação sem falar das diferenças culturais entre o país em que vivo e o país de onde vim. Nasci no norte do Brasil. E esse é um país completamente diferente de Brasília. Acho que em qualquer lugar é possível compreender a conexão profunda dessa coisa abstrata, porém sólida, altamente criticável e ao mesmo tempo essencial aos indivíduos chamada família. Porém não sei se é possível entender da mesma forma a questão do corpo. Quem já foi ao norte sabe o que eu quero dizer. Sabe o que é ser chamado de “maninho” até pela atendente da companhia aérea. O norte tem heranças indígenas que não foram completamente aniquiladas na colonização. É muito mais que as expressões e a comida. É o toque, o calor.
É estranho explicar que até os dez anos de idade eu tomava banho com meus cinco irmãos mais os primos que estivessem nas redondezas, completamente pelado e sem saber o que era vergonha. E acho que meus amigos devem olhar com estranheza que meu irmão caçula, hoje um atleta de quase dois metros, forte o bastante para me arremessar por uma quadra de futebol, fique enciumado de saber que minhas irmãs dormiram na minha casa e passamos a noite conversando. A ponto de declarar com plena segurança depois de um filme que pretende dormir comigo e, sem esperar permissão, se jogue na minha cama para me contar seus planos para o futuro. Deve ser difícil entender a ingenuidade dessa carência.
Sabemos que não nos criamos da forma como gostaríamos; brigando por espaço, nos engalfinhando por um pouco de privacidade, odiando a ridícula mania de super-proteção uns dos outros. Particularmente, eu os invejo. Eles são cinco. E, parece mentira, mas consigo imaginar perfeitamente suas discussões por telefone, no viva-voz, criticando e rindo de nossos pais, uns dos outros, todos ao mesmo tempo. Juro que o roteiro de Brothers and Sisters foi baseado nos meus irmãos, porque eles são exatamente daquele jeito. Pelo menos no que tange a não se meterem onde não são chamados. Meus irmãos se metem. O tempo todo. Exatamente como eu faço.
Talvez eu procure amigos que são como uma família pela falta dessa. Ou talvez seja simplesmente algo do sangue. O fato é que às vezes quase escuto o barulho que fazem. Procuro suas presenças como se tivessem chamado meu nome e desejo do fundo coração que estejam bem e que possam lembrar meu número se precisarem de ajuda. E os abraço, fechando os olhos. Luinne, ágil e firme como o são as bailarinas. Luane, sempre emotiva, rebelde, tão parecida comigo que me assusta. Junior, inocente e gentil feito a infância. Lorran, o menino-homem mais bonito que já conheci e Gabi, minha apaixonada e sábia Tereza. Cacahuèté. Filha de Iemanjá, irmã e mãe. Tenho seis irmãos. Um pequeno exército pessoal que se ama um amor feroz. Em certas noites, procuro por cinco deles na memória para entender melhor as partes que me faltam e enfrentar o mundo.
sábado, 29 de janeiro de 2011
Cercado
Lendo o famoso perfil que o jornalista Gay Talese escreveu sobre Sinatra, “Frank Sinatra está resfriado”, este texto me surgiu. Algo na breve descrição do relacionamento entre o cantor e Ava Gardner o trouxe à tona. Como uma onda que leva à praia qualquer coisa que havia estado presa entre os corais
Você era uma estrela brilhando, cercado de gente, requisitando e recebendo atenção. Alimentado por amigos, por passantes; conhecidos que eram imediatamente brindados com o convite para se juntarem à festa, ao séquito do qual você necessitava para estar no mundo. Eu, que sempre precisei do silêncio, incomodava-me com os olhares e os gestos. Eram palavras ditas sem propósito, na dança batucada das conversas de bar. Era uma necessidade de ser gentil, porque não via sentido em destratar essa gente que nada tinha a ver com meu isolamento. Não eram eles que me invadiam. Era eu que, sem compreender aqueles convites para me juntar à algazarra, invadia a noite alheia com a minha solidão.
E você me puxava pelo braço, buscava meu olhar distante, dizia vem. Vem, sem desistir do seu orgulho, nem ficar pequeno diante da minha prepotência de considerar pobres os que não escutam o silêncio. Vem. Mas eu sempre fui assim. Quando criança, inventava nos quintais de casa meus espaços secretos. As fortalezas da solidão do Super-Homem. Vem. E eu te via brilhando, como se te observasse do alto de um prédio, rodopiando na brincadeira de festejar. E eu sentia ciúmes. Não de toda aquela gente, porque eram só rostos esmaecidos, eram só uma multidão. Eu sentia ciúmes dessa entrega. Vem. Uma entrega de quem domina a arte de se fazer sumir no meio de muitos e chama atenção porque se mescla.
Hoje eu entendo; entendo que o que a gente chama de amor são tantas outras coisas. Mas na verdade o amor é essa tensão que existe bem no meio, entre todos esses desejos dissonantes de que são feitas as pessoas. E, enquanto esperamos paz, o amor - ou a cousa que em realidade existe e que talvez seja o mais próximo que se pode chegar da invenção do "amor" - na verdade é o conflito. Esse conflito entre o seu chamado e a minha recusa; bem no meio dele. Não é o seu chamado que é o amor. Não é a minha recusa, mesmo que a minha recusa viesse com um outro convite inconfesso - de que você se juntasse a mim na solidão -, também não é esse outro convite. Ambos os convites são apenas todos os desejos que eu carregava e você carregava já muito antes de nos conhecermos e vamos carregar muito depois. O amor é a tensão entre os nossos desejos. O atrito.Enquanto você queria não se sentir só, cercado de gente, e eu queria alguém que entendesse meu silêncio, havia amor. Depois alisamos nossas superficies e o amor passou.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Mãinha
Mãinha sabia que era médium desde os seis anos de idade. Tinha recebido suas cartas da madrinha e, na época, achara que aquele pequeno baralho colorido com borboletas e dançarinas eram o mais belo brinquedo da casa. Não demorou muito para descobrir que as cartas não vinham em duplas e, portanto, não se podia jogar com elas o jogo da memória. Não como o conhecia. A memória que as cartas evocavam era a memória das histórias, das vidas que foram vividas num tempo sem tempo na roda das Eras. E esse jogo Mãinha só pôde aprender no correr de sua própria história, acertando e errando, abrindo caminho nessa arte antiga e imprecisa que é prever o futuro olhando o passado.
Criou seis filhos e, entre eles, pouco lembrava quais tinha posto no mundo e quais o mundo é que lhe dera. Desses seis, apenas um se tinha desencaminhado e, por ele, não havia nada que ela ou os búzios pudessem fazer. Há histórias, contou-me, que rolam abaixo numa pedreira e, uma vez postas a girar, só param quando se espatifam no fim. Não sei se foi porque ouvi pacientemente seu relato ou por alguma sorte que tenho até nos lugares mais inusitados, mas nos tornamos amigos imediatamente. E fiquei logo à vontade para lhe perguntar se minha história era uma dessas rodas sem freio correndo rumo à destruição.
Ela riu. Riu, sobretudo, da minha calma, que disse ser falsa. E zangou-se com minha insistência em continuar a me comportar como um menino, quando tudo a minha volta me gritava para ser homem. “Mas você tem a tranqüilidade do leão, porque essa é a sua lua. E o leão só sai da toca ao sentir fome”, e voltou a rir, depois da zanga. Foi embaralhando seu carteado e eu fui vendo, em suas mãos, as mãos da menininha que deve ter sido. Criando intimidade com o baralho, pedindo a ele que falasse da minha história. E eu fui imaginando essa mulher, velha como o mundo, conectar-se ao chão como se tivesse raízes. Lembrando a foto de uma xamã guatemalteca que vi na infância e com o que imagino que se pareçam os sábios aos jovens heróis no começo de suas jornadas.
Pouca cor sobrara nas cartas escolhidas por mim e que ela agora virava para me contar os segredos. Vi a borboleta e vi a dançarina e, por elas, levei mais alguns safanões para entender logo que já era hora de pisar firme no chão, pois ele estava prestes a se sacudir sob meus pés. Mas vi também o lobo e a roda, falando sobre lealdade e aventuras num país distante. Vi sombras sobre as quais não falarei aqui e, quando achava que já era o bastante, eu vi Mãinha subitamente curiosa, virar-se para mim e, com uma inocência inesperada, perguntar-me:
“Você está esperando alguém?”. E, de algum lugar de dentro, ouvi minha voz responder convicta “Sim”. Mãinha, para minha surpresa, tinha mais perguntas “Quem?”. “Não sei”, eu disse simplesmente. Foi aí que aconteceu. Os olhos dela se encheram de lágrimas e meu peito se apertou e eu acreditei.
Acreditei nas cartas e acreditei na anciã e acreditei que tudo tinha um sentido e que essa solidão, essa solidão tremenda, é isso. Essa ausência, que é a minha ausência no meio da multidão, é isso. Uma espera resignada. Uma espera. Enquanto eu estava envergonhado, apanhado sem avisos nos emaranhados de uma fé que disfarço como curiosidade antropológica, ela afagou minha mão. “Tão humilde”, me disse. “Apesar de toda essa fachada, você é humilde”. E eu quis chorar, abaixei o rosto e, porque há mesmo uma humildade secreta em esperar, me senti feliz. Orgulhoso de ouvir pela primeira vez na vida. “Você é humilde”, repeti em pensamento. Por algum motivo inescrutável, minha nova amiga concordou.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Páginas do meu livro
http://www.ovodacodorna.blogspot.com/
http://patavinas.zip.net/
Espalhadas esperando costura e capa.
O passado manda cartas
E fico pensando: se pudéssemos mandar uma carta ao passado, o que será que escreveríamos?
Trecho
06/02/08"alguns dias eu nem acredito das coisas das quais faço parte
Veja o menino que fui; o que tinha certeza de que a vida passaria num quadro impressionista, retratando eternamente aquele mato orvalhado cobrindo a terra lamacenta do quintal. E o único lugar para o grande, para o notável, seria a tela daquela cabecinha de menino, de imagens rápidas, sólidas e surrealistas. É esse menino que se isola no quarto com outras telas repletas de artificialidades pontilhadas e digitais, a salvo dos sustos de notar a vida notavelmente grandiosa que construiu sem se saber construindo – pois de outra forma, inclusive, poria tudo abaixo -, para tomar algum fôlego, pois os anos passam e ele ainda guarda a sensação de que a felicidade é vertiginosa, estranha expansiva. Que lhe descompressa os pulmões e exige ar, tomando espaço, ocupando; com um agir intuitivo de levantar a mão e se imprimir no mundo.
Mas essa felicidade é um sopro, está claro. Veja como escrevo: falando a você, sempre a você – querendo ser visto (bem, isso é humano, nós sabemos) -. Só que tão pequeno, tão comprimidamente. Um comprimido de texto. Como se diz das crônicas de humor, só que sem graça. Espere.
Eu sou simplesmente um produto do meu tempo (olhe que tolice: acabo de dizer “isso é humano”. Como se tudo mais, inclusive eu, não o fosse) assim vivemos, sentimos e lembramos. Tudojunto. Pequeno e rápido, talvez não se viva. Mas certamente se fala assim. Economizando. Um ponto disso, um ponto disso e você já sabe o que quero dizer, então para que precisamos ter isso dito? Nós dois, eu e você, temos pressa, mesmo que seja uma pressa tranqüila. É porque vamos apenas passar. E a sua vida na minha mente fica sendo um retrato impressionista.
Então temos tristeza. Eu noto tristeza; bom, na verdade noto uma vaga sensação de perder algo e lembro da familiaridade, da expressão no rosto dos outros, do nome que ouvi: tris-te-za. É bonito. É a questão do impressionismo, existe sempre mais de uma sugestão, quando vi uma, perdi outra.
Seria bom poder escolher que impressão levar. Talvez a tristeza da infância esteja nisso: nós não escolhemos a impressão que trazemos, mas algo aqui soube das possibilidades. Que o mato orvalhado poderia ter sido uma selva e a lama, areia movediça. Sem telas voyerísticas do mato e contemplações surrealistas eu teria sido mais feliz? Ou só teria sido qualquer coisa que não sou.
Falta sempre um fecho. Digo a mim mesmo quando isso acontece: “você está com medo de dizer tudo”. No entanto quando é que dizemos tudo? Diz-se que deixar brechas é tão pseudo-profundo. Mas outro dia disseram de mim que, por sempre delinear tanto e trazer cada ponto, sou por demais didático. Como se isso fosse uma coisa ruim. Como se para imprimir tivesse de ser vago. Como a vagueza no notar a felicidade das coisas que andam e funcionam na vida."
(Ronan Nascimento)
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Pedido de Reveillon
Fazia algum tempo que ele não me ligava. Há um mês ou mais eu havia ligado, mas ele não atendia. Foi um não atender que dizia que alguma coisa sobre não ligar. Assim, não liguei. Agora me via atendendo com aquela calma de quem assiste a um filme. Foi dizendo que estava sozinho em casa com uma amiga, os pais viajando. Era engraçado aquele dele receio de convidar, de dizer. Esperei, sorri e esperei.
Estava com o mesmo sorriso quando a porta do elevador abriu. Um sorriso de olhar para baixo, rindo do chão. Me chamou de querido. Sempre me chama assim e é verdade de algum jeito, porque sempre me sinto querido, quisto ou bem-vindo, enfim. Já não tinha nada daquele receio. O mesmo receio da última vez que nos encontráramos; andando depressa, ansioso, a boca endurecida, os olhos correndo aos lados, a despedida apressada. O mesmo receio do telefone; o medo do meu não, o medo do meu sim. E eu sorrindo, esperando aquele “querido”.
Deitamos no sofá, um filme qualquer da amiga e eu assistindo este filme dele, notando, anotando. Seu cheiro me distraindo, inspirando. Ele vira de súbito, com um sorriso tão grande que parecia uma risada “Vamos pro quarto, querido”. Nenhuma pergunta. A amiga ficou na sala, dormiu, viu filme, fez um café. Todo mundo é solitário em alguma noite, mas essa não era a nossa. Ele sabia disso, daí ria. Ria com o vento frio, ria do lençol, ria uma risada gostosa, de menino brincando na praia.
No meio da noite me acorda; não fala, mas tem medo. Tem medo do barulho do vento, tem medo de se afogar no meu sono e tem medo desse meu sorriso, desse sorriso calmo, que nem eu sei de onde vem. Começa uma fala gaguejada, parando nas frases, voltando atrás. Espera minha insistência, finge que se irrita com a minha curiosidade. Pergunto pelas beiradas. Quero entender esse receio que dá o ritmo de todos os encontros. Não porque quero que mude. Não porque não o aceite, pelo contrário. Ele me intriga, esse gaguejar eloqüente. Uma história se querendo contar.
“Sabe, querido ”, ele disse, simplesmente “Eu já conheci muitos filhos-da-puta”, e não diz mais nada. Então minha curiosidade vira tristeza. Porque naquele silêncio não tinha mais gaguejar. Só silêncio e frio. E veio surgindo em mim uma vontade enorme de dizer todo o resto. De dizer que os filhos da puta estavam aí e que vida tem disso de quebrar o coração da gente. Mas que nada é para sempre, nem a alegria nem a tristeza. Veio uma vontade de falar do mar, para ver se ele ria de novo aquela risada de praia. Vontade de contar que eu nunca tive medo do mar, que queria me agarrar nas ondas e ir embora agarrado nelas, puxado pelos dedos, mas elas quebravam na areia me fazendo engasgar.
E de dizer finalmente que não dá para se agarrar a uma onda, por mais que se tente, mas que desapego também não é isso. Desapego não é se sentar no seco, num lugar que a onda não chega. Desapego é mergulhar. Vendo a maré encher, sentindo-a passar. Mas não disse nada. Talvez por covardia, talvez por não querer ser também um filho da puta prometendo mais do que podia cumprir. Só o apertei mais forte no peito e, naquele quarto frio e seco, pedi que não tivessem roubado a vontade daquele menino de entrar no mar.