domingo, 2 de dezembro de 2012

O tempo no pulso


"O domínio do escritor não está na mão que escreve, essa mão 'doente' que nunca solta o lápis, que não pode soltá-lo (...) O domínio é sempre obra da outra mão, daquela que não escreve, capaz de intervir no momento adequado, de apoderar-se do lápis e de o afastar." 
Maurice Blanchot


Achei um relógio velho numa gaveta. Comprei tem dez anos. Não usei porque era muito pesado, e também porque não gostava de relógios e ele brilhava muito. Na época fiquei arrependido. Era minha primeira viagem para o exterior e aqueles euros podiam ir embora em coisa mais divertida. Eu nem gostava de relógios. Na verdade, depois daquele relógio e do arrependimento, fixei na ideia de que nunca usaria relógios. Isso, sim, foi a vantagem da compra. Como já tinha um relógio, não precisava de mais nenhum para saber que não era, afinal, uma pessoa de relógios. E segui de braço solto, livremente atrasado, pelos dez anos seguintes.
O estranho – é até provável que alguém não acredite – foi que andei pensando nesse relógio. Hoje mesmo, na verdade. Estive lembrando de quantos relógios de aniversário ficaram guardados até que a bateria esgotasse. E acabaram repassados para gente mais pontual. Lembrei porque, veja só, pensei em comprar um relógio. 
Cheguei a refletir que meu braço talvez já não se incomodasse tanto. Que já não me atraso para tantos compromissos e que acho um pouco bonito, um pouco antiquado, em tempos de Iphone, usar um relógio no pulso. 
E lembrei desse relógio de Roma, dos 14 anos, das decisões. 
Quando abri essa gaveta inocente e o achei, parei por um minuto, meio chocado e coloquei o tal relógio no pulso. Mas, dessa vez, no direito. Percebi, enquanto ajustava os ponteiros, que usei ele errado da primeira vez. Canhoto, naturalmente coloquei ele no punho esquerdo. Os relógios talvez não tenham sido feitos para gente como eu.
Dessa vez, contudo, ele pareceu perfeitamente alinhado. Achei esquisito. Olhei com certa desconfiança, meio contrariado desse alinhamento repentino. Deixei passar. Ele já não brilha tanto. E funciona, depois de dez anos. Resolvi usar por alguns dias... Talvez só até amanhã. Sem muito apego, meio coração duro, meio infantil. Como um desses cachorros maltrapilhos que a gente adota e depois perde o interesse. Mas aí lembrei que são decisões dessas, tomadas assim, casualmente, que nos definem. Senão por uma vida, talvez pelos próximos dez anos. 
Será que é assim tão ruim se alinhar um pouco? Pertencer? O pulso preso na demora e na pressa. Uma agonia foi surgindo. Saber constantemente que o tempo está passando. E se nisso de saber a hora eu já não tiver tempo de saber de mim?
Mas hoje eu já conheço essa agonia. Essa agonia nunca foi embora. A verdade é que ela é muito mais fiel que esse relógio que me esperou dez anos na gaveta. Essa agonia canhota nunca me deixou ser completamente alinhado. E nunca vai deixar. Ela é que escreve compulsivamente, que agarra a caneta, que foge do tempo. E sempre vai fugir. 
Acariciei o relógio já não tão brilhante, e ele me disse que faltavam cinco minutos para meia noite. Me disse ali do lugar dele, na mão direita, que era preciso ser responsável por ele. Responder pelo tempo. Pelo dia que terminou agora e começa outro. Pela escrita. Pelo texto. Pelo cachorro maltrapilho que se adota, mesmo que ele seja só metafórico. 
Já deu a hora.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"Palavras, palavras, palavras..."

Freud, Lacan, Guimarães Rosa,
Derrida.

Paulatinamente avança.
Passo a passo,
vislumbra alcança
tropeça
Topa tateia enxerga
Passo a passo, adentra. Entende. Brilha!
Afora, perde.

Pira.

Retoma resume reúne
retira, relata, resiste, reporta
humildemente recorta.
Se ressente covarde, reduz

Levanta.
Revê.
Não dá conta de tudo.

Do começo, (lê) mais uma vez


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Barthes

Para Aisha


Quando me apaixono, temo que meu Amor me devore. Então me afasto. Corro do outro. A menos que seu Amor seja feroz como o meu. Um Amor pode devorar outro Amor. Imobilizam-se. Acalmam-se. Se ao outro incomodam as quedas d'água, ele nada pode. É tão frágil que parece firme e forte. Tão frágil quanto a indiferença. A fragilidade do amor é um despreparo. Está sempre desprevenido, pego de surpresa pela intensidade inesperada. O Eu te amo é uma surpresa para o amor frágil. Já a saudade incontida é um grito de sufoco. O Amor está como quem aguarda. Se extasia. Mas já esperava. Sua fera espreitava o tempo da fera do outro.

Te faço homem e mulher no que tenho de mais louco. Te faço meu sintoma de loucura. És o objeto amoroso que me denuncia.  Quando nos apaixonamos, só o que iguala nossa intensidade é que a sacia. O amor do outro, tão grave quanto o meu, me aplaca. Como me aplaca a queda d'água, a tristeza do fado, o mar. Quem não se apaixona em gravidade chama o rugido furioso do mar de barulho, não aceita ser do outro sua denuncia. Quando descubro o que me fascina no outro, já não o amo. Porque descobrir não é achar. O que se descobre é ponto final, que fecha numa forma fixa o que antes era só pontilhado.

O Amor sempre termina em tragédia ou tédio. Mas, às vezes, renasce. E é preciso acreditar no seu renascer, embora sua travessia seja imprevisível, embora algum preparo para o fim seja imprescindível. O Amor não aceita fragmentar-se; terminar sem acabar. Porque mataria sua essência de fera. E não poderia nunca mais renascer.

A cena é a seguinte: Ela se sentava sempre na beira do banco, para ouvir o Amor. Sentava com as pernas entrecruzadas, os joelhos perto do queixo, as mãos segurando os dedinhos dos pés. Sentava em pouso. Daquele banco podia saltar a qualquer momento. Nesse caso, alçaria vôo pela janela, tinha pernas longas e saltava alto. Poderia também levantar-se direto para um passo de dança, onde se reuniria em alegria na companhia da amada. Mas gostava especialmente de ficar ali sentada, para ver a outra dançar.


Bordado


I 
 Isso que o nome não diz
que nos afeta -
duvida da língua - diz dobrado
responde a mim – esse sarcasmo
Apropria esse gesto.
Três dedos sobre a boca. A
nenhum lugar que tenha ido
as palavras estão.
Que é o que nos afeta,
funda o passado
quando não disse
Olhares perdidos
no cruzamento, escuta,
desfaz essa hierarquia violenta
que nos une no silêncio
Fala. A herança era dívida.
Teu direito uma obrigação.
Não te ajudaram, não te avisaram.
Conta.
Não sobrou. Não tinha.
Não veio. Não chegou,
não anda, não solta, não foi.
Não disse.
Desdenha a mensagem do pai.
Rejeita a origem, não olha no espelho.
Não envelhece. Nunca. Corre, frui. Goza.
Agora grita. Veste a angústia no grito.
Envolve o terror na seda do grito. 
Enoda no estômago,
desenlaça no grosso.
Engole. Engasta.
Entope. Ensurda.
Não ama. Corta.
II 
 Isso que volta, titubeia de volta
quer um sentido qualquer
que nos diga
Mais humilde, mais à moda da casa
Que quer dizer
Também não ama.
Vai e retorna.
Diz pior. Melhora.
Já não grita
- quase.
não conta o nome.
Finge que obedece, engatinha
troca a roupa toda.
Nenhuma serve.

III 
 Desde já agora era.
É para trás que se avança.
Quando então.

Arte e Psicanálise - em rima

Preencher o vazio não rola.
O que dá pra fazer é borda.

Arte e Psicanálise


Esse vazio no peito
Não dá pra preencher
esse vazio,
não.
Mas dá pra bordear. Esse vazio

domingo, 4 de novembro de 2012

Senão - Blanchot II

Quando dizes assim:
Preciso te dizer essas palavras
senão...

O que vem a completar a sentença
é sujeito ao delírio pessoal que criastes
última centelha de identidade
que te restou, porque estás possuído

Como exemplo, podem-se listar
pelo menos quatro torturas
elementares

Se fores sujeito de água, digamos
Completas dizendo
Senão me afogo

Mas, se és do fogo,
Explode.
se fores do ar
sufoca

E de terra
aí com nada completas
porque há muito te enterrastes
e agora precisa de alguém que te salve

Nada disso é real,
é delírio, já o dissemos
Não te afogarás, explodirás, tampouco sufocarás
(embora seja possível que te enterres e se ninguém vier em teu auxílio estás perdido)

Nenhuma dessas torturas te acometerá
por palavras não-ditas.
Mas o teu destino será muito pior

Preciso te dizer essas palavras
senão não as terei dito.

Esse é o inconcebível,
o que apavora mais que morrer
porque equivale a não ter vivido:
Não dizer.

O terror dos mortos é serem esquecidos
por isso carregamos fantasmas
O dos vivos é morrer
por isso carregamos fantasmas

Mas o terror de não dizer
não é morto nem vivo

É terror do texto.
É texto o que assombra
- afoga, explode, sufoca, enterra -
É texto que invoca fantasmas

Sob pena de condená-los ao esquecimento
porque, no fim, medo, angústia, aflição,
são sintomas galopantes de texto.


Sem artigo, sem definição
interminável, solitário e...


Texto que inventa, ameaça
manipula,

desloca - condensa

deseja, que quer,
mais texto.



Ser dito.
Senão.