V. soube o que eu fazia de um amigo sentado a seu lado na mesa. Sorriu abertamente e, num desses momentos em que a balbúrdia se torna murmurinho, acabou falando alto demais, quase gritando, que queria que eu fosse seu analista. A mesa emudeceu, aguardando resposta, o bar inteiro. Eu demorei o olhar. Ele estava numa ponta da mesa e eu em outra. Eu sentado, de pernas cruzadas, óculos, minha armadura de trabalho, minha fantasia; e ele de roupas coloridas, uma camiseta com um decote imenso no frio e uma tatuagem no peito, mas, acima de tudo, vestido com os olhos. Olhos imensos. Olhos puxados como um gato, mas enormes e tremendamente castanhos. Não se fala muito sobre os olhos castanhos; como se um olho fosse apenas castanho e isso fosse fato acabado, sem nada mais a dizer. Os olhos de V. punham esse estereótipo por terra. Diziam muito de serem castanhos e não cessavam. E eu lhe disse que não. Não daria conta de sua psicodelia. A espera se desfez em risada, mas V. não riu. Olhou-me fundo e respondeu que era mentira. Eu não o analisaria, provocou, porque os psicanalistas não devem amar. E minha fantasia não o enganava, eu era um amante do caos. Foi assim que nos conhecemos.
domingo, 21 de julho de 2013
domingo, 30 de junho de 2013
Crônica da Pólvora VII
Estou
de volta àquele cais. Estou de volta aos iates e veleiros, estou de volta ao
início da Bahia de Dorian, estou de volta à praia, ao mar, às reminiscências. O
tempo não passa na memória, mas as memórias passam, embora não as vejamos
passar. Não lembro de tudo. Não lembro do gosto dos lábios de J. naquele primeiro
beijo que ele me roubou, não lembro do que ele disse entre risos, não lembro da
minha negativa, não lembro do poema que recitei, não lembro do que lembrava na
hora, não lembro de lembrar de M., não lembro de não chorar, não lembro de
tudo. Este cais não é o cais de M. Este óleo das águas deste cais, estas velas,
não foram parte das expedições de M. M. desprezava minhas lembranças. M. que
possuía o mar e agora possui a selva de pedra, enquanto eu só possuía o
deserto. M e eu. J. entre nós. E o cais e o mar e o gelo.
terça-feira, 25 de junho de 2013
Crônica da Pólvora VI
Os cabelos de M. eram um personagem à parte, uma
mítica extra-pessoal, um recurso poético que um crítico poderia analisar como
se fosse o próprio poema. Do cabelo de M. digamos apenas que era o traço a que
o comum se referiria depois de vê-lo na rua. Certa vez, um míope o entendeu
como convite, fumando na entrada de um bar qualquer, enquanto os amigos o
esperavam, não pôde não os convidar – os cabelos - para juntarem-se à roda.
Depois, M. tinha certeza, não lembrou de seu rosto, dos joelhos magros, da pele
alvíssima, lembrou apenas de seus cabelos. Fez amor com os cabelos de M. durante
uma semana. M. tinha certeza. Depositava-se de tal forma naqueles cachos
angelicais, que ainda sinto o revoar da cabeleira por meu pescoço agora que
olho sua fotografia. Sempre discordei dessa percepção tola, sempre achei seus
cabelos mero detalhe de sua personalidade. Mas há três anos não nos falamos.
Soube recentemente, por um amigo em comum, que raspou a cabeça.
domingo, 26 de maio de 2013
(Resposta a um amigo que me perguntou o que é tão deprimente nos domingos)
A melancolia do domingo não é realmente por estarmos na beira de começar outra semana.
Mas por ser o fim insuportável da que passou.
Não é a repetição que nos desespera, podemos suportá-la e aguardamos ansiosamente pela ilusão dela.
É perder que angustia.
E esse tempo do domingo, essa última hora, esse pouco antes de segunda, é tão importante porque afinal se evidencia uma improbabilidade de pesadelo:
E se, ao invés de repetir tudo de novo,
segunda nunca mais chegar?
sábado, 18 de maio de 2013
Crônica da Pólvora V
D. ligou do Sul. Disse que sente falta de Brasília afinal e viver é isso de sentir falta ou nunca sair. Prefere sentir falta. Disse que entende, agora, o que eu amo no deserto. Mesmo que eu lhe dissesse que, para mim, não era um deserto. Repetiu que entendia meu amor pelo deserto. Falou que a vida sem amor era um cruzar deserto. Poeira e cansaço. Miragem de água. Mais um dia. Menos um dia. Mas que havia gente como eu que, nas encruzilhadas de areia, fazia caravanas.
Crônica da Pólvora IV
Numa noite inesperada cheguei ao prédio de J. e disquei seu número do orelhão da rua. Não achei que ele fosse atender, era muito tarde. Mas a luz do seu apartamento acendeu e ouvi sua voz sonolenta depois do clic. Quando atravessei o umbral da porta, me dei conta de mim no olhar pasmo que ele me lançou. Eu fedia a cigarro e cachaça. Enquanto a água do chuveiro esquentava e caía desperdiçada no chão, minha voz tropeçava na língua e nas roupas e as explicações se perdiam. É como as baleias, lembro de ter dito. Elas voltam para a praia onde o caçador vai descansar o arpão. Elas vão morrer na praia, mas isso não tem nada a ver com não conseguir mais nadar. Elas precisam mostrar ao caçador a ferida que ele fez. Olha, eu sangro. É o que as baleias dizem.
Crônica da Pólvora III
Na cidadezinha em que nos conhecemos, uma vez dormimos no píer. J. me disse então que era engraçado que eu não fosse mulher e mesmo assim ele sentisse que podia dormir no meu ventre. Entrar ali e dormir ali. E me habitar. Disse-me que, com um ventre como o meu, eu logo quereria filhos. Mas eu não era mulher. Disse isso a ele, antes de nos separarmos. E fiquei muito tempo olhando os barcos amarrados no píer, e desejei que inundassem.
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