segunda-feira, 1 de março de 2010

Sentido de permanência e romantismo


Dos livros que já li, Isabel Allende não é a melhor escritora. Nem é a mais madura nas reflexões que faz, nem a mais poética na linguagem que usa. Mas é a que mais fala comigo. Alguns escritores simplesmente falam a mesma lingua que você, como alguns amigos. É como se eles se interessassem pelos mesmos assuntos ou escrevessem bem aquela frase que você disse outro dia quando estava distraído. Voltando na estrada de uma cidade-satélite pro trabalho, eu lembrei de um diálogo entre a empregada da protagonista e o mocinho em "De amor e de Sombras".

A história é uma trama novelesca que se passa num cenário-espelho do que era o Chile tomado pelos militares, na ditadura do Pinochet. Irene é uma jornalista alienada e corajosa como só os ingênuos são. Ela escreve para uma revista feminina e acaba se apaixonando pelo colega fotógrafo, Francisco, um psicólogo impedido de trabalhar pelo regime, que encontra no fotojornalismo uma forma de sustentar a família e clandestinamente ajudar os perseguidos políticos a escaparem do país.

Em dado momento, fica claro que eles ficarão juntos independente dos riscos a que ela estará sujeita ou das diferenças entre as visões de mundo dos dois ( que francamente nem são tão nítidas assim, não sei se por falta de uma caracterização melhor das personagens ou se porque, criada no porcelanato da classe-média e acostumada a olhar com ligeireza jornalística, Irene só carece de alguma profundidade para se revelar parecida com o companheiro). Então a mulher que criou a repórter resolve advertir Francisco do barco em que está se metendo, dizendo algo como:

"- Ela é como uma borboleta, você sabe. Não tem nenhum sentido de permanência..."
Ao que Francisco responde sem hesitar:
"- Não se preocupe. Tenho o suficiente por nós dois."

Sabe, eu amo Francisco por dizer isso. Talvez por já estar, nesse momento, tão envolvido com a história que o entendo. E porque eu seja tantas vezes como Irene e perca meu sentido de permanência até que alguém me lembre do que é importante. Mas o fato é que está errado. E esse é o problema com o romantismo. É tão bonito de se admirar que você acaba esquecendo que não faz o menor sentido. Pode até ser estúpido, se pensar bem. O realismo, por sua vez, tem uma preocupação menos estética. É mais simples, não gera tantos suspiros e muitas vezes nem precisa de tantas palavras. Podia ser resumido assim:

" - Não tem sentido de permanência que dê para dois. Cada um fica por si. Beijo, Irene"


Mas quem vai fazer uma novela disso, né?



- Vaza, filhote. Essa aí é chave de cadeia

2 comentários:

Laine. disse...

Você.

Leila Saraiva disse...

é como eu te disse Ronan: as pessoas podem ser loucas, ok. Mas você não é obrigadx a lidar ou suprir as loucuras e ausências de ninguém.