sábado, 15 de janeiro de 2011

Mãinha

Mãinha sabia que era médium desde os seis anos de idade. Tinha recebido suas cartas da madrinha e, na época, achara que aquele pequeno baralho colorido com borboletas e dançarinas eram o mais belo brinquedo da casa. Não demorou muito para descobrir que as cartas não vinham em duplas e, portanto, não se podia jogar com elas o jogo da memória. Não como o conhecia. A memória que as cartas evocavam era a memória das histórias, das vidas que foram vividas num tempo sem tempo na roda das Eras. E esse jogo Mãinha só pôde aprender no correr de sua própria história, acertando e errando, abrindo caminho nessa arte antiga e imprecisa que é prever o futuro olhando o passado.

Criou seis filhos e, entre eles, pouco lembrava quais tinha posto no mundo e quais o mundo é que lhe dera. Desses seis, apenas um se tinha desencaminhado e, por ele, não havia nada que ela ou os búzios pudessem fazer. Há histórias, contou-me, que rolam abaixo numa pedreira e, uma vez postas a girar, só param quando se espatifam no fim. Não sei se foi porque ouvi pacientemente seu relato ou por alguma sorte que tenho até nos lugares mais inusitados, mas nos tornamos amigos imediatamente. E fiquei logo à vontade para lhe perguntar se minha história era uma dessas rodas sem freio correndo rumo à destruição.

Ela riu. Riu, sobretudo, da minha calma, que disse ser falsa. E zangou-se com minha insistência em continuar a me comportar como um menino, quando tudo a minha volta me gritava para ser homem. “Mas você tem a tranqüilidade do leão, porque essa é a sua lua. E o leão só sai da toca ao sentir fome”, e voltou a rir, depois da zanga. Foi embaralhando seu carteado e eu fui vendo, em suas mãos, as mãos da menininha que deve ter sido. Criando intimidade com o baralho, pedindo a ele que falasse da minha história. E eu fui imaginando essa mulher, velha como o mundo, conectar-se ao chão como se tivesse raízes. Lembrando a foto de uma xamã guatemalteca que vi na infância e com o que imagino que se pareçam os sábios aos jovens heróis no começo de suas jornadas.

Pouca cor sobrara nas cartas escolhidas por mim e que ela agora virava para me contar os segredos. Vi a borboleta e vi a dançarina e, por elas, levei mais alguns safanões para entender logo que já era hora de pisar firme no chão, pois ele estava prestes a se sacudir sob meus pés. Mas vi também o lobo e a roda, falando sobre lealdade e aventuras num país distante. Vi sombras sobre as quais não falarei aqui e, quando achava que já era o bastante, eu vi Mãinha subitamente curiosa, virar-se para mim e, com uma inocência inesperada, perguntar-me:

“Você está esperando alguém?”. E, de algum lugar de dentro, ouvi minha voz responder convicta “Sim”. Mãinha, para minha surpresa, tinha mais perguntas “Quem?”. “Não sei”, eu disse simplesmente. Foi aí que aconteceu. Os olhos dela se encheram de lágrimas e meu peito se apertou e eu acreditei.

Acreditei nas cartas e acreditei na anciã e acreditei que tudo tinha um sentido e que essa solidão, essa solidão tremenda, é isso. Essa ausência, que é a minha ausência no meio da multidão, é isso. Uma espera resignada. Uma espera. Enquanto eu estava envergonhado, apanhado sem avisos nos emaranhados de uma fé que disfarço como curiosidade antropológica, ela afagou minha mão. “Tão humilde”, me disse. “Apesar de toda essa fachada, você é humilde”. E eu quis chorar, abaixei o rosto e, porque há mesmo uma humildade secreta em esperar, me senti feliz. Orgulhoso de ouvir pela primeira vez na vida. “Você é humilde”, repeti em pensamento. Por algum motivo inescrutável, minha nova amiga concordou.

Um comentário:

... disse...

' FORTE! Parabéns por esse também.